O SÍNDICO

 

O aviso foi afixado no elevador: “Assembléia geral ordinária do Condomínio Jardim do Ócio será realizada no dia 28 de março, às 20h00min, em primeira convocação, ou ao final da novela, em segunda convocação, no salão de festa do edifício”. Como se não bastasse, foi entregue uma cópia do aviso para cada morador que entrasse no prédio, inclusive para as crianças. Finalmente, no dia 27, o zelador passou em cada apartamento lembrando os mais esquecidos.

 

No dia 28, esforcei-me para chegar tarde em casa. Saí atrasado do trabalho, levei o carro na oficina para uma revisão geral e, finalmente, fui ao supermercado fazer a compra do semestre. Mesmo assim, quando passei pelo salão, não havia ninguém, embora já fosse mais de nove horas. Fiquei animado: a reunião já deveria ter terminado.

Mal consegui sair do banho, tocou o interfone:

— Alô!

— Alô! O senhor não vai descer para a assembléia? Falta só o senhor para completar o quorum — disse o zelador.

— Daqui a pouco eu dou um pulinho aí — respondi para despistar, enquanto vestia a blusa do pijama.

Acabei de me vestir, sentei no sofá e peguei o jornal para dar uma olhada. Nem consegui acabar a primeira página, fui interrompido pela campainha, que parecia ter disparado.

— O senhor não vai descer para a assembléia? — disse o zelador assim que abri a porta.

— Eu estou um pouco cansado. Fica pra próxima — disse-lhe, fechando a porta na cara.

Fui até a cozinha tomar um cafezinho. Só então me lembrei que era uma quarta-feira, dia de ginástica da esposa, por isso, tive que me contentar com um Nescafé. Estava colocando o adoçante quando a campainha disparou novamente. Abri.

O zelador estava parado à minha frente com uma feição bastante séria. Trazia preso por coleiras dois dobermans com feições mais sérias ainda. Ele falou simplesmente:

— Por favor, o senhor me acompanhe até a assembléia.

Resolvi obedecer. Todos estranharam quando entrei no salão de pijama. Mas, com o tempo, pude reparar que nem todos estavam convenientemente vestidos. A dona Marta do 41, enrolada numa toalha e com cabelo molhado, comentou:

— Vocês me desculpem, mas o zelador não me deu tempo para me vestir.

Às dez horas, teve início a reunião. O síndico apresentou uma relação de obras de sua gestão, mostrou os gastos, a folha de pagamento dos empregados e tentou justificar os altos valores do condomínio. Não convenceu. O pessoal começou a reclamar. A viúva do 63 disse que vivia da pensão e que assim não era possível. O aposentado do 52 reclamou que era aposentado e que assim não era possível. O senhor do 32 disse que era assalariado e que assim não era possível. O estudante do 22 argumentou que vivia de mesada e que assim não era possível. Eu simplesmente falei que assim não era possível.

De nada adiantou. O síndico nem deu atenção aos comentários. Depois tocou no assunto que ninguém queria ouvir:

— Eu já estou há dois anos como síndico. Já dei a minha colaboração. Acho que está na hora de trocar. Temos que escolher quem vai me substituir.

Todas as pessoas reunidas olharam simultaneamente para o teto, como se tivesse acabado de chegar um disco voador. Aos poucos, foram baixando a cabeça e, de repente, estavam todos olhando para o chão, como se tivessem perdido alguma coisa.

— Temos que escolher alguém para síndico — repetiu ele.

O mal estar foi ainda maior. Ninguém se mexia, com medo de chamar a atenção. Não consegui me controlar e acabei me mexendo na cadeira. Um ruído quase imperceptível me denunciou. Todos olharam para mim.

— É ele — falou a viúva, apontando para mim.

— É ele — falou o aposentado, apontando para mim.

— É ele — falou o assalariado, apontando para mim.

— É ele — falou o estudante, apontando para mim.

— É ele — falou o zelador, com os dobermans olhando para mim.

Fui eleito síndico por aclamação, sem direito a réplica nem advogado de defesa.

 

 Aglumas crônicas do livro:

A CEIA 
O MESTRE 
MOISÉS E CHAPEUZINHO VERMELHO  
O SEQÜESTRÁVEL 
O SÍNDICO 
PAMONHA, PAMONHA, PAMONHA

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