O SEQÜESTRÁVEL

 

Aristeu Almeida Sobrinho herdou do pai o comando da Indústria Petroquímica Septeno e mais uma dúzia de empresas menores. Além do cargo de presidente executivo do grupo, Almeida Sobrinho era membro do conselho de administração de nove outras empresas, conselheiro do Clube de Regatas Bons Ventos, Doutor Honoris Causa da Universidade Mamede Coelho, representante do empresariado na “Liga de Ferro de Empresários Paulistas” e, finalmente, síndico do prédio onde morava. Mas nenhum desses títulos ele ostentava com tanta freqüência quanto o de “seqüestrável”, que ele fazia questão de exibir a seus colegas empresários.

A brincadeira acabou quando Jorge Dantas, seu amigo de infância e também empresário do setor petroquímico, foi seqüestrado quando saía de casa. Ficou noventa dias sob a mão dos seqüestradores, trancado dentro de uma caixa de fósforo num barraco na favela Monte Aprazível, vizinha da mansão onde morava.

Nunca mais Almeida Sobrinho usou a palavra “seqüestrável”. E ainda fazia cara feia se alguém o lembrasse da brincadeira que até um tempo atrás era a sua predileta. Aliás, parou de brincar. Tornou-se sério e carrancudo, deixando de lado inclusive sua vida social tão intensa até então.

Mesmo restringindo sua vida ao trabalho, de onde saia direto para casa, não tinha mais tranqüilidade. Mandou blindar o carro. Contratou dois seguranças. Obrigava o motorista a fazer um caminho diferente a cada dia a fim de não facilitar para “eles”.

Nem todas essas medidas o tranqüilizaram. Sentindo-se constantemente perseguido, resolveu tomar uma medida radical. Resolveu contratar um sósia. Um sujeito com a mesma estatura que a sua, porém com os traços físicos ligeiramente diferentes. Nada que quatro cirurgias plásticas não pudessem resolver.

No começo, o sósia era usado apenas no trajeto casa-trabalho-casa. O dublê de executivo ia acompanhado de guarda-costas no seu carro importado, enquanto ele, Almeida Sobrinho, seguia com quinze minutos de retardo usando um carro segunda mão, devidamente disfarçado de táxi de praça.

Este esquema não foi suficiente para tranqüilizar o empresário. Achando que poderia ser seqüestrado mesmo dentro do escritório, ordenou ao sósia que tomasse seu acento na cadeira de presidente. Deixou a administração das empresas nas costas do sósia e restringiu sua participação apenas às reuniões estratégicas.

Da mesma forma, com medo de ter sua casa invadida por “eles”, exigiu que o sósia também tomasse o seu lugar em sua própria casa, jantando à mesa junto com sua família e, mais que isso, dormindo no mesmo quarto que sua mulher. Na primeira noite que o sósia veio dormir em sua casa, Almeida Sobrinho mudou-se em definitivo para um sobrado velho do outro lado da cidade, não avisando nem a família, nem os amigos.

O sósia era bem articulado. Falava bem, tinha bons conhecimentos gerais, mas não possuía a visão empresarial de Almeida Sobrinho, que já não participava sequer das reuniões estratégicas. Algumas medidas erradas, os juros altos, problemas com fiscais. Tudo isso foi levando as empresas a uma situação cada vez mais difícil.

Foi por um jornal popular que Almeida Sobrinho, o verdadeiro, ficou sabendo do seu próprio seqüestro seguido de morte. Num primeiro momento, sua reação foi de espanto, mas logo foi tomado por uma surpreendente alegria, saindo eufórico pelas ruas:

— Eu morri. Eu morri. — gritava ele, indo à pé em direção ao novo trabalho, de cobrador de ônibus.

Sempre tivera facilidade pra lidar com dinheiro.

 

 Aglumas crônicas do livro:

A CEIA 
O MESTRE 
MOISÉS E CHAPEUZINHO VERMELHO  
O SEQÜESTRÁVEL 
O SÍNDICO 
PAMONHA, PAMONHA, PAMONHA

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