MOISÉS E CHAPEUZINHO VERMELHO

 

Teatro sempre foi uma das minhas maiores paixões. Depois de futebol, cinema, jogos de azar, lutas marciais, televisão, vídeo game, pára-quedismo, arco e flecha, arranjos florais, patinação, malabarismo, meditação, salto com vara, autorama e arrombamento de cofres, vem, sem dúvida nenhuma, o teatro.

Meu interesse por essa arte milenar começou muito cedo. Estava na 3a série quando recebi um convite da professora de português para atuar em Chapeuzinho Vermelho. Um não como resposta significava um ponto a menos na média final, que já estava bastante comprometida. Aceitei o convite. Todos os meus colegas aceitaram, pelos mesmos argumentos.

Durante as duas semanas de testes, os papéis de árvores foram logo sendo preenchidos. Mas para interpretar Chapeuzinho Vermelho, o Lobo Mau e a vovozinha, era preciso ter alguma noção de movimento, além de uma certa capacidade de falar para fora, talentos raros entre os meninos da turma. Por isso, os atores para estes papéis tiveram que ser recrutados na 4a série, entre o pessoal mais experiente.

No dia da apresentação, o teatro, que até a tarde anterior era o refeitório, já estava todo tomado. Pais desesperados se amontoavam, ansiosos para verem seus pimpolhos interpretarem árvores na tragédia de Chapeuzinho Vermelho. O espetáculo começou com quinze minutos de antecedência, assim que a cortina desabou. No meio do segundo ato, uma árvore espirrou. As outras, sem conseguir se controlar, dispararam a rir. Mesmo assim, no final, todos acabaram aplaudindo.

Mas minha experiência definitiva em teatro só aconteceu alguns anos depois. Estava na 5a série, quando recebi outro convite irrecusável. Desta vez, foi a professora de hebraico que fazia questão da minha presença em A história de Moisés. E seus argumentos eram ainda mais fortes: dois pontos a menos na média. Não tive como recusar.

O papel principal, o de Moisés, ficou logo com o Saul, o único da classe que conseguiu decorar os Dez Mandamentos em ordem. O Ricardo acabou interpretando o faraó, pois era o que tinha mais cara de faraó. Os demais se dividiram em dois grandes grupos. O primeiro fez o papel das ovelhas, na época em que Moisés ainda era pastor. Entre elas, havia uma especial, a responsável por atrair a atenção de Moisés e levá-lo até a árvore em chamas, que anunciava a palavra de Deus. O segundo grupo formava a multidão de judeus que vagou pelo deserto atrás de Moisés, a caminho de Israel.

O meu papel?

Foi de ovelha, naturalmente. Não a ovelha especial, mas a comum. Tive que ficar de quatro por dez minutos, fazendo “Méééé...”. A peça também fez grande sucesso entre os pais. Ao todo, contando os três atos, durou uma hora. Pelo menos quarenta minutos foram dedicados à caminhada dos judeus pelo deserto, representada no palco por 73 voltas ao redor de uma mesa circular – o Monte Sinai. Mesmo assim, os pais adoraram.

Quando, no ano passado, o Cacá Rosset, que por acaso havia assistido às minhas interpretações na escola, convidou-me para fazer parte do seu grupo de teatro, fiquei realmente surpreso.

— Que papel você quer? — perguntou ele.

— Qualquer um, menos o de ovelha — respondi instintivamente.

 

 Aglumas crônicas do livro:

A CEIA 
O MESTRE 
MOISÉS E CHAPEUZINHO VERMELHO  
O SEQÜESTRÁVEL 
O SÍNDICO 
PAMONHA, PAMONHA, PAMONHA

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