O MESTRE

    Auxiliar de ajudante de bibliotecário”.

Era assim que Pedro Wagner respondia quando lhe perguntavam o que fazia ou no que trabalhava. Em geral, omitindo o “auxiliar”, às vezes, o “ajudante”. E quando, ainda não satisfeitos, perguntavam a ele o que fazia um “auxiliar de ajudante de bibliotecário”, ele respondia:

— Faz de tudo — omitindo, desta vez, que “tudo que ninguém mais queria fazer”, como varrer o chão antes da biblioteca fechar, ou passar um pano nos livros, ou colar as capas que caíssem.

Nisso consistia sua função mais importante e da qual ele mais se orgulhava. Colar as capas dos livros exigia, segundo Pedro Wagner, técnica, precisão, habilidade manual e um vasto conhecimento literário, que, na realidade, ele não tinha. De família pobre, teve que abandonar os estudos muito cedo para trabalhar.

Mesmo semi-analfabeto – só conhecia as vogais –, Pedro Wagner compensava esta limitação com esforço e dedicação. Assim, qualquer livro que chegasse às suas mãos sem capa era imediatamente submetido a uma nova encadernação. E muitas vezes, na ânsia de não deixar nenhum livro desencapado, recolocava uma capa diferente da original. Em muitos casos, até com capas de outros livros que também estavam órfãos.

Foi assim que Macunaíma tornou-se Quincas Borba, Cem anos de Solidão virou Anais do Terceiro Congresso Brasileiro de Psicolingüística e Obras Completas de Freud se transformou nos dez primeiros volumes do Almanaque de Férias da Turma da Mônica, entre tantas outras inovações literárias.

Batalhador que era, Pedro Wagner não se contentou em ser um simples auxiliar de ajudante de bibliotecário. Com a ajuda do vigia noturno, homem pacato de origem polonesa, também semi-analfabeto – só conhecia as consoantes –, conseguiu aprender os restos das letras que ainda não sabia. Depois, formou sílabas e palavras até virar um rato de biblioteca, lendo qualquer coisa que aparecesse pela frente, de história em quadrinhos a filosofia.

Voltou a estudar. À noite, depois do trabalho. Seu esforço era reconhecido pelos colegas, pelos freqüentadores da biblioteca e até pelo diretor, que lhe deu seguidas promoções. Assim, quando Pedro Wagner entrou na Faculdade de Letras, toda a biblioteca festejou.

Na faculdade, Pedro Wagner se destacou como um dos melhores da turma. Seu conhecimento de literatura era surpreendente, embora “confundisse” alguns livros e autores na opinião dos colegas. Os professores também se interessaram pelo talentoso estudante. Por isso, ele teve facilidade em renovar as sucessivas bolsas de estudo cedidas pela faculdade.

O expediente na biblioteca permitia a Pedro Wagner ler os livros que precisava. Apenas no período da manhã o movimento era grande. À tarde, a sala de leitura ficava praticamente vazia. Era lá que ele se sentava para suas leituras e para preparar os trabalhos da faculdade, consultando muitos dos livros com capas trocadas.

Desta forma, conciliando seu trabalho na biblioteca, onde já era bibliotecário chefe, com as aulas na faculdade, Pedro Wagner finalmente se formou. Nada mais esperado. Os colegas da faculdade, do trabalho, professores, todos se reuniram para comemorar. E, no meio de tanta alegria, todos perguntavam a mesma coisa: “E o mestrado?”.

— Começo a me preparar na semana que vem — disse Pedro Wagner, para euforia geral dos convidados.

Em sua tese de mestrado, Pedro Wagner queria reunir os livros e autores que mais o haviam marcado. Pretendia consolidar diferentes áreas do conhecimento numa abordagem direta e consistente, sem deixar de citar nenhum autor importante. Embora fosse uma proposta bastante ambiciosa, ninguém duvidava de sua capacidade.

Nos meses seguintes, Pedro Wagner se dedicou inteiramente à sua tese. Por pelo menos oito horas por dia, ele se sentava na sala de leitura da biblioteca, onde agora era o diretor, para ler seus livros preferidos e escrever a sua tese. Um caderno, uma caneta Bic, uma calculadora e uma pilha de livros com anotações, seus instrumentos de trabalho. Na pilha de livros, alguns dos seus favoritos, como: Germinal (Os Lusíadas), Cidades Mortas (A Moreninha), Romeu e Julieta (Fundamentos da Teoria da Relatividade e da Física Quântica) , Dom Casmurro (1200 piadas de papagaio), segundo ele, o livro mais surpreendente de Machado de Assis.

Dois anos depois, estava pronta a sua tese, um calhamaço de oitocentas páginas que discorria sobre a história da literatura universal e suas influências nas ciências modernas. O texto trazia desde citações da Bíblia (Lista de assinantes da cidade de São Paulo), até fórmulas matemáticas e teorias da física moderna.

A tese espantou o meio acadêmico. No dia de sua apresentação, diante da banca examinadora, munido de textos, gráficos e computador para os cálculos mais complexos, Pedro Wagner não se intimidou. Discorreu por várias horas sobre o seu tema, destacando as grandes obras da literatura universal, salpicando a complexidade de sua teoria com piadas do papagaio Godofredo, personagem principal de Dom Casmurro. A idéia era não cansar demais os ouvintes.

Deu resultado.

Terminada sua exposição, quando normalmente viriam as perguntas da banca, ninguém se manifestou. Na verdade, um silêncio profundo tomara conta da sala. Cada um reagia de uma forma. Muitos baixavam a cabeça. A orientadora de Pedro Wagner não conseguia parar de se coçar, como se tivesse sido atacada por um enxame de abelhas africanas. Um aluno da pós-graduação estava a meia hora numa crise de riso, ninguém sabe se em função do papagaio Godofredo ou por alguma outra razão de fôro íntimo.

Depois de quinze minutos de absoluto silêncio, o presidente da banca examinadora se levantou e falou, para alívio de todos:

— Mestre, o seu trabalho está muito além do nosso tempo. Só podemos dar-lhe DEZ. Mas, por acaso, o nome do papagaio não seria Bentinho, não?

 

 Aglumas crônicas do livro:

A CEIA 
O MESTRE 
MOISÉS E CHAPEUZINHO VERMELHO  
O SEQÜESTRÁVEL 
O SÍNDICO 
PAMONHA, PAMONHA, PAMONHA

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